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domingo, 27 de março de 2011

wayward east havens

longo estupor causado pela dor, negação, agonia, desespero, abismo vê seu fim... a seca poeirenta recebe sua primeira leve chuva e prepara as sementes adormecidas para as monções.

o arco já curvado ao fogo dos anos preparado para o retesar do fio.

o invisível dos anos que nos costura e segura nossas células renovando-se ao longo da mesma frequência.

olho a porta, ela me olha, me conta que os ferrolhos não existem a maçaneta não arde em chamas o tapete de boas vindas recém colocado ressoa almíscar e absinto

quase vejo as flores brancas espalhadas prontas para enroscarem-se nos dedos dos pés ressecados da longa caminhada... o sal grosso incenso o vinho e o banho

olho para a porta percebendo que não lhe lembrava as cores, pronta para abraçar a minha temperatura

eu nada sei queria saber para brilhar seus olhos de interesse, mas eu ardo em sol, mais uma vez, envolta na luz que a estrada me deu... do core pulsante das estrelas

as sempre verdes bebendo do gotejar dos riachos prestes a desarolhar torrentes

agora que a areia me brilha na memória eu suponho entender porque o mar me parecia gelar o horizonte luzidio me empurrava a falar ainda não, agora eu posso segurar os que eu amo e falar vamos comigo, eu pareço tão feliz agora que a paz renovou minha pele e não vejo mais as cicatrizes que pareciam existir

o ruflar das velas sendo içadas gaivotas gritando da cidade da noite de verão todas as cidades são desse mar sem fim do fio que costura, podemos nos recolher ao reduto e todo o fio se desenrola de lá

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

se eu tropeçar, rolo serra até o pé do mar

... descendo a serra

serra acima

a subida é um processo doloroso

esparramar meu coração e envenenar as sempre-verdes que exaurem os rios

a cada curva mais distante de casa
e nada
cordas silenciosas pulsam e se esticam
nunca romper os fios que transmitem o chamado

da estrada
do selvagem
do mar

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Onda rasa

-- Vamo, levanta daí, vem logo.

E ele continuava estirado na rede, balançando preguiçosamente, queria saber onde, porque, num dava pra ser depois?

-- Não, num dá, vem logo, vem ver o mar comigo, vem logo.

...


-- Sabe, eu não entendo você, você é muito mística. Parece que tudo tem um significado pra você. Meu deus, ficar daquele jeito por conta de uma tempestade?

Meu bem, olha a neblina, num é linda, vem descendo a serra, tomando as ruas, não é demais? Se a gente for pra praia de novo, vai ver que ela está lá, rolando rolinhos em cima das ondas.

-- Mas como é que você consegue viver assim, acreditar assim, ver o mundo assim, como se tudo tivesse um outro significado, essa história do mar ser seu pai, do mar ser sua mãe...

Só sentir, sentir, ficar extasiada de tanto sentir... o mar é enorme, pulsa, duvido que você não sinta o pulso, não voe com o vento, não escorra com a chuva e não resplandeça com o sol, não sei como é possível não sentir.

...

Ele levantou botou os chinelos e eu já tava no portão, indo rua, de tijolos sextavados, tudo muito bonito. A areia assorriscava a perna, como é que ele não podia ver?
Sentir o cheiro de ozônio, as descargas elétricas pendentes, o céu alaranjando, as nuvens armando de trás da ilha.

Era um espetáculo que se formava, as ondas rebentando baixinho baixinho, mas rápido e forte. O vento carregado de gotas de água e sal, assoviando.
Ele segurou apertando a minha mão, jurava que não me entendia. Me joguei na água quente, que é que ele queria?

...

Depois, na rede, eu via a neblina descendo a serra. Nem sei se foi dia de Natal, ou véspera de Ano Novo, sei que foi lá pelos idos do solstício, na bainha do mar, no pé da serra.
É sempre gostoso poder escorrer com a chuva e sentir o açoite do vento. Mesmo que você não entenda, mesmo que você rejeite, você sente.



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Orquidário

Nada que queria, aquela hora eu pensei que queria era bolinho de chuva e chá, muito chá. Queria chuva talvez. Mais chá.
É tudo tão quentinho aqui. Quietinho. E a música toca.
Deito a cabeça no travesseiro de espuma vazada... e escorrego na madeira encerada. Areia molhada, folhas de hera, pés de jaca.
Pavimento de pedrinhas, pavimento de placas, poço tampado, penas de pavão, gansos cruzando grasnando. Araras. Borboletas. Eu não lembro se já então elas me assustavam.
Guarda-sol azul marinho. Suco de laranja com maçã e beterraba.
Valeu tudo isso?

A baleia de pedra. O trepa-trepa colorido. O barulho do mar. Cheiro de maresia. Expresso com chantilly.


E as caixas de sapato empilhadas no porto.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

fundinho de leite que sobrou do sucrilhos

nem tudo eram linhas de amor, no entanto
tinha o poema sobre a menina que corria
....................................... com a estrela no peito pra alcançar
....................................... a pérola do fundo da bacia talhada
....................................... de nuvens cinza e azul

sábado, 11 de julho de 2009

Buscando nuvens

o céu desenhava formas de galeão
...................................................... transatlântico
............................................................................ avião
a s a s de n u ve m
avião
asas de nuvem esperando que as vestíssemos

e alçássemos vôo


o mundo a volta era só barulho
as paredes tremiam prestes a ruir
os estalidos estampidos tambores
rangidos berros assolavam os ouvidos


o galeão ao largo no momento de calmaria
logo mais a casa
desmoronaria

terça-feira, 30 de junho de 2009

Uma vez que não vou pra casa

De novo, pulsando, o desejo pelo mar. O ventre universal. Bom, universal em termos, afinal, era só talvez universal para os organismos da Terra, planeta.
Mas pulsava, e eram poucos minutos pra um pé na estrada e escorrer serra abaixo.
Poucos minutos não... uma eternidade... trocentos trezentos minutos.

Uma vez lar incogitável a possibilidade de outra viagem outra estrada a subida da serra até o momento que era inevitável e inadiável e logisticamente inviável estar ficar parar.

Pulsando o sonho pelo mar. Lá. Voltar para o lar.
Mas só tem lá pra mim, quando tiver lar lá pra mim.

Mar sempre vai ter.
Falta, falta faz mais que comida.
Mas vou ficar de jejum por esses dias, essa vez.

Mar sempre vai ter pra mim.