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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

se eu tropeçar, rolo serra até o pé do mar

... descendo a serra

serra acima

a subida é um processo doloroso

esparramar meu coração e envenenar as sempre-verdes que exaurem os rios

a cada curva mais distante de casa
e nada
cordas silenciosas pulsam e se esticam
nunca romper os fios que transmitem o chamado

da estrada
do selvagem
do mar

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Vodka on the rocks

-- Pessoas interessantes, onde estão?
Será que eu era muito chata, só tinha gente chata em volta, quando eu fui ver.
-- Eu não estou atrás de ninguém... e isso aqui tá tão chato.
Será que o dj não percebia que Vive La Fête numa festa fazia morrer a festa. Eu segurava meu copo de vodka com gelo, sentindo gelar minha mão, o estômago mais fazia era revirar queria tomar tudo pras pessoas ficarem mais bonitas faz tempo que as pessoas não ficam bonitas. Isso que é legal, as coisas tomam uma velocidade alucinante com álcool. Combustível pra noite.
-- Caramba, faz nove minutos que estou nessa droga de festa.
Pessoas largadas no sofá conversando animadamente sobre algum assunto babaca do último momento diretores de cinema e fotografia de algum momento dramático da história universal e aquela droga de Vive La Fête.
-- Lembra, chére, era legal ouvir essa música quando falava com ... ah, deixa, você não conhece.
O pior de uma festa é você encostar num canto. Logo vem um bando de mosquitos querendo cheirar você. Achando que porque você encostou é por que está afim de encontrar alguém ... Eu estou mesmo, alguém interessante pra conversar, con-ver-sar.
-- O que faz uma menina bonita como você sozinha?
O tédio. A Jana conversava feliz ali com um engenheirozinho, sempre tive coisas contra engenheiros. Lúcia toda encantada pelo seu marxista-de-plantão-in-dreads.
Dei mais um gole na vodka, expressão de maluca brisada
-- To muito louca, não quero falar não só to ouvindo a música. (Aquela chateação de Vive La Fête)
Nossa, Strokes... me lembra ...
Conversar é mesmo desnecessário, conclui depois de ouvir as razões do Driano. Talvez ele deteste esse nome, quero mais duas vodkas com gelo, mas coloca gelo pra uma vodka só não, não tudo nesse mesmo copo, é só pra mim.
-- 'my feelings are more important than yours' em bom e analítico inglês.
Olhei pras minhas calças compridas compridas demais os tênis vermelhos com cadarços desamarrados imagino o resto. Nunca consegui manter uma postura boa, a essa hora minha barriga deve estar enorme, meu baton já deve ter saido todo no copo, como é que alguém se atreve a falar comigo afim de afins? Eu não estou afim, meu desleixo todo diz isso.

As vezes eu andava por aí vestida de homem, pra mostrar que eu não estava nem aí. Mas mesmo assim, numa festa dessas da vida, teve um maluco que quis saber porque eu estava sem baton.
Mas eu estava de baton, pra desfarçar os lábios avermelhados de mulher.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

noite de inverno

uma cadeira sentada
caneca tomada
todas as luzes incandescentes acesas
- brancas não, frias
janelas cerradas, vidros vedados

a cama vazia, a vela acesa, as leituras e o copo de vinho
esperam
esperam
esperam
o sono chega e o telefone não toca

o cheiro do chocolate com leite faz a noite se revolver

domingo, 21 de junho de 2009

Give Me Love (Give Me Peace On Earth)

"Tudo pode acontecer.

Qualquer coisa.

Tudo muda o tempo todo.

E eu não quero a dor de pensar nisso."

Ela se enroscou nas barras do parapeito da escada. Apagou a luz. Queria vivenciar empiricamente a pressão da sombra. A tal da situação lúgubre ponto e vírgula ansiedade.

A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes espécies de almas. O homem, diante da noite, reconhece-se incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céu negro é o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido.
Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; às vezes quer ir lá.

- Aonde? Lá? Que é que há lá?
Não sabia, queria, queria e iria. Sem futuros do subjuntivo. Ir. Sorrir. O sorriso de uma vida calma. Banhar-se em águas quentes e silenciosas, com todo o universo aberto a volta. Com a liberdade de tudo que é natural.

Não mais o gelo ventando no ventre como uma mão tentando arrancar a boca do estômago, não mais aquela tristeza medrosa que ela não conhecia direito. Não e não e não aos segundos arrastando-se como minutos vencidos.
Nada daquilo existia, era só um pouco de noite escura passada. A tristeza era feia e cheirava a bile. A espera era gelada e chorava para tentar imitar o silêncio.

Levantou a cabeça, criou asas. Inspirou toda aquela sombra e escuridão. Abertos os braços a porta se abriu.

Trying to, touch and reach you with,
heart and soul

quarta-feira, 17 de junho de 2009

óleo e estilete

cada canto
cada ponta
pe-da-ço

de imagem de cor clara cor pele de albrecht dürer

de vermelho de ocre e de terra queimada

reconheço

cada pedacin
nho

me irrita

reconheço
vejo de longe

belisca saber.

co-ça
machuca cutuca

incomoda reconhecer e saber.

ca da pe da ço de cor pe le albrecht dürer